Ordem dos Cartuxos

O Rosário, o Terço
A sua origem e a sua intenção primordial

por Karl Jos. KLinhhammer S.J.1

E is aqui em alguns traços concisos a história da origem do Rosário. Ela pode ajudar aqueles que o rezam a melhorar a sua maneira de o rezar, e levar aqueles que dizem não o poder rezar a rezá-Io. O Rosário tem particularmente a mesma origem que a devoção medieval do Sagrado Coração. Nasceu no tempo do Grande Cisma do Ocidente (1370-1417), num momento de infortúnio imenso, como amor restituído a Cristo, amor de inspiração e de expressão bíblica de que a Virgem Maria, sua Mãe, pode tornar-se o intérprete junto de nós.

I - A lenda do rosário não é assim tão antiga

Uma nota preliminar impõe-se: nós não devemos permitir-nos divulgar as lendas, quando há séculos sabemos que elas são falsas. Senão, aumentamos as dificuldades de crer naqueles que procuram a verdadeira fé.

Ora uma lenda, que resiste obstinadamente, pretende que o Rosário foi entregue durante uma aparição da Virgem a S. Domingos como proteção na sua luta contra os Albigenses. Esta lenda é falsa, embora seja mencionada em certos documentos eclesiásticos.

á em 1743, quando aparecia o primeiro volume das « Acta Sanctorum » tratando dos Santos do mês de Agosto, o Bolardista Willem Kuypers S.J. prova que as biografias de S. Domingos não mencionam esta lenda ao longo dos dois primeiros séculos que seguiram a sua morte. Ele acrescenta que esta lenda não aparece senão em 1460 nas obras de Alam de Ia Roche O.P. (†1475). Ela é o fruto da sua imaginação excessiva devido (segundo Heribert Thurston S.J.) a uma confusão de nomes, pela qual ele confere a maneira de rezar do Cartuxo de Tréveris, Domingos de Prússia (†1460), ao fundador da sua Ordem. Depois de circunstâncias favoráveis e sobretudo graças à tipografia nascente, os trabalhos de Alam espalharam-se por toda a parte, dando crédito à lenda. Deus permite muito, certamente, em matéria de crença nos domínios próximos da fé; mas não é para que concentremos mais a nossa atenção sobre o conteúdo principal da nossa fé, em que Ele empenha a sua infalibilidade ?

Tomás Esser O.P. editou em 1889 um manual para uso da confraria dominicana do Rosário no sentido da lenda. Mas nessa altura da redação teve dúvidas a esse respeito. Ele tem o mérito de ser o primeiro a explicar, aí por fins do século XIX, após um estudo aprofundado das fontes, que « a introdução progressiva dos pontos de meditação na oração do Rosário » remonta aos Cartuxos de Saint-Alban de Tréveris na metade do século XV. Ele podia ainda citar os nomes de Domingos de Prússia e de Adolfo de Esser.

Infelizmente não conseguiu reencontrar e explorara as obras originais dos Cartuxos de Tréveris.

Esse trabalho foi somente realizado durante estes doze últimos anos.

Teve como resultado esclarecer-nos definitivamente sobre a formação primeira do Rosário e sobre a sua intenção primordial.

Pela mesma ocasião, desmoronaram-se, como sem fundamento, todas as outras suposições ou teorias daqueles que - em comparação de Tomás Esser O.P. - se aventuraram bem imprudentemente. Entre estes últimos, citemos sobretudo as Irmãs Dominicanas de Toss, que estão próximas do místico Henrique Suso O.P. (†1366) e também de Henrique de Calcar O. Cart. (†1408).

A denominação « Rosário » é ambígua.
O seu primeiro sentido é profano.

O termo latino « rosarium » ou ainda « rosarius » não foi usado com a mesma significação nos diferentes períodos do passado. Numa mais antiga série de manuscritos, podia ser a forma latinizada do termo alemão “Rols (cavalo)”. Ele foi usado nesse sentido para designar coleções e obras de consulta, como por exemplo uma nomenclatura de decisões jurídicas ou um código de conveniências da época.

E num período mais recente que se faz derivar o nome do termo latino « rosa ». « Rosarium » toma então a sua verdadeira significação de: roseiral, roseira ou coroa de rosas. Será preciso ainda esperar um bom momento, antes que o termo designe a cadeia de pérolas que nós denominamos hoje « rosário » ou « terço » (O primeiro nome do terço foi « Pater noster »). Isso não acontecerá senão no fim do século XV.

A rosa simbolizou em todas as civilizações que a conheceram o amor humano. Após as cruzadas, um conto persa, « Goulistan », introduziu-se no Ocidente e fez a conquista, no meio do século XIII, de todas as cortes das nobres européias, sob a sua versão francesa do « Romance da Rosa ». O amor é descrito com realismo como uma incursão num jardim de rosas. As mulheres nobres da Idade Média trocam com os seus cavaleiros « coroas de rosas », como prova de amor. Por um desenvolvimento ulterior, crescente nos meios nobres, as canções de amor são em breve chamadas « rosarium ». Não é preciso mais que um pequeno passo para designar igualmente com o nome de « rosarium » as canções de amor e de louvor dirigidas à Mãe de Deus.

Visto sob este ângulo, não é fácil compreender como a maneira simples e despojada de rezar das pessoas humildes, que consiste em repetir 50 vezes a saudação angélica, tal como os Cartuxos de Tréveris o tinham ensinado desde o princípio do século XV : Como esta maneira humilde pôde herdar o belo nome de Rosário, que os nobres reservaram à sua obra-prima ?

Esse único fato atesta que o Rosário nasceu sob a influência dum nobre, familiar da oração popular, em uso nas regiões da Baixa Renãnia. Como é que isso aconteceu ?

A Ave do « Cântico de amor marial »

Esse nobre conhecia a fundo a literatura da corte, a piedade das gentes simples e o pensamento de Santa Matilde de Hackeborn (1241-1299).

Desta maneira, os escritos baixo-renanos e os mais antigos documentos sobre o Rosário citam sem cessar um extrato do seu livro « Liber spiritualis gratiae », que mostra em que sentido a saudação do anjo é dirigida à Mãe de Deus. Eis a tradução literal: « Um sábado, durante o canto da Salve Regina, ela (Santa Matilde) diz à Santíssima Virgem: Ah! se eu pudesse, Rainha do Céu, saudar-te com a saudação mais querida que um coração humano possa inventar, eu o faria com grande alegria ! »

Nesse momento a Virgem apareceu-lhe em Glória. Sobre o seu peito um grande laço tinha gravada em letras de ouro a saudação do anjo: Eu te saúdo, Maria, cheia de graça… A Virgem lhe respondeu :

Ninguém ainda ultrapassou essa saudação e nunca ninguém poderá melhor saudar-me do que dirigindo-me com muito respeito a saudação que Deus Pai me fez transmitir pela palavra « Ave ». Por essa saudação, Ele o Onipotente tomou-me tão forte e tão corajosa, que eu fui poupada de toda a mácula de pecado. Também, Deus Filho esclareceu-me tanto com a sua sabedoria que me tomei uma estrela cintilante que ilumina o céu e a terra : é o que exprime o nome « Maria », que significa « estrela do mar ». Enfim o Espírito Santo me impregou com a sua divina doçura, que me encheu de tantas graças, que agora quem procura graça junto de mim encontra-a. E o sentido das palavras « cheio de graça ».

Com as palavras « O senhor está contigo » recorda-se como duma maneira indizível toda a Santíssima Trindade me une a Ela e realiza a Sua obra em mim, tomando da minha substância carnal e unindo esse qualquer coisa à natureza divina para não fazer senão uma só pessoa, de maneira que Deus se tomou homem e que o homem se tomou Deus. A alegria e a felicidade que eu senti nesse momento, ninguém poderá nunca concebê-lo perfeitamente.

Por « bendita entre todas as mulheres », cada criatura reconhece e testemunha que eu fui bendita e elevada acima de todas as outras criaturas, no céu e na terra.

Por « bendito é o fruto do teu ventre », é anunciado como uma bênção e festejado com júbilo o fruto salvador do meu corpo. Ele vivifica e santifica todas as criaturas e enche-as de bênçãos para a eternidade.

No tempo de Santa Matilde de Hacheborn, a Ave terminava com as palavras de Santa Isabel « bendito é o fruto do vosso ventre ». E somente durante o século XIV que se lhe acrescentou o nome de « Jesus », e mais ainda muitas vezes « Jesus Cristo ».

Na Europa de Leste, como por exemplo, na Polônia, ignora-se o nome até cerca de 1400.

O acréscimo « Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pobres pecadores… » vem mais tarde; foi introduzido na Ave pelas Confrarias do Rosário, isso duma maneira definitiva no princípio do século XVIII somente.

Quando o Rosário nasceu cerca de 1400, a Ave não era ainda senão uma saudação muito pessoal à Mãe de Nosso Senhor.

II - Os dois mais antigos escritos do rosário

Aí por 1398, Adolfo de Esser entrou para a Cartuxa de Saint-Alban de Tréveris. Pouco tempo depois, redigiu, com a licença do seu Prior, o P. Bernard (†1430 em Colônia), dois opúsculos em língua alemã dirigidos à Duquesa de Lorraine, Margarida de Baviera. Remeteu-lhos aí por 1400, provavelmente no seu castelo de Sierck, a montante de La Moselle em relação a Tréveris.

O primeiro escrito era uma « Vida de Jesus », que até hoje não foi identificado. O segundo, intitulado « Pequeno Jardim de rosas de Nossa Senhora », foi descoberto em dois exemplares. As duas obras completam-se e deviam introduzir a duquesa numa nova maneira de meditar :

Durante a recitação das 50 Ave, aquele que medita faz mentalmente desfilar diante de si o nascimento e a vida de Jesus. Ele toma a sério o amor ao mesmo tempo universal e muito pessoal de Deus. Por esta benevolência agradece-lhe com alegria; está persuadido de encontrar em cada particularidade da vida de Jesus uma resposta aos seus próprios problemas.

Alguns 20 anos mais tarde, nas introduções de que Adolfo fez preceder os textos do Rosário, é precisado que esta oração vocal das 50 Ave não obtinha a sua verdadeira beleza - aquela que agrada a Nosso Senhor e sua Mãe - que graças à meditação da vida de Jesus. É recomendado que ao longo desta meditação sejam evitados cuidadosamente toda a fantasia e embelezamento arbitrário, que afastam do Evangelho. Adolfo insiste muito para que aquele que reza o terço se esforce por transformar a sua vida em consequência.

Em conclusão : o Rosário na origem não era um piedoso exercício ao lado de outros exercícios. Era uma conduta global - fundada sobre a Bíblia e a Teologia - em vista da reforma da sua vida individual e da vida eclesial no estado presente.

A duquesa Margarida de Baviera (1376-1434)

A 6 de Fevereiro de 1393, a filha de Roberto do Palatinat - que devia tornar-se Rei da Alemanha (1400-1410) - desposou Carlos lI, duque de Lorraine (1364-1431).

O duque era grande capitão, homem político de primeiro plano, mas débil sobre o plano moral. Quando o seu sogro se tomou Rei da Alemanha, ele bateu-se por ele. Mas voltou-se cada vez mais pata o oeste a partir de 1412, se bem que o Parlamento francês lhe concedeu em 1418 o título de « Connétable », isto é, nomeou-o general-chefe das forças armadas. É verdade que ele exerceu esta função durante apenas um ano.

Apesar do amor sincero e da consideração que ele sentia pela sua esposa Margarida, não chegou a permanecer-lhe fiel, tanto mais que ela não lhe deu - após vários partos prematuros - senão duas filhas. Com a idade, ligava-se sempre mais à sua amante, Alizon du May, uma antiga regateira de Narcy. Ela deu-lhe vários filhos e filhas, que ele dotou num primeiro testamento em 1408, depois num segundo em 1424.

Margarida viveu o seu casamento no meio dum mundo caótico. Porque a política entrava na Igreja, tinha-se chegado à eleição de dois Papas. O sínodo de Pisa em 1409 agravou a situação votando um terceiro Papa. A Inglaterra estava em guerra - uma guerra que devia durar cem anos (1339-1453) - com a França, cujo Rei Carlos VI (1380-1422) se afundava cada vez mais na loucura.

A situação não era melhor na Alemanha onde o Rei Venceslau levava uma vida vistosa em Praga e descurava o governo do seu país. Exagerou ao ponto de os príncipes-eleitores o demitirem das suas funções - aliás em vão - e elegeram para o seu lugar o pai de Margarida como rei. A certa altura três candidatos disputaram a coroa imperial. Ao mesmo tempo este Ocidente tão dilacerado estava ameaçado na sua própria existência. Os Soldados do Crescente, fortemente instalados na Península Ibérica e ameaçando todas as costas do Mediterrâneo, deslocaram-se desde os Balcãs sobre a Hungria.

Tudo isso pesava fortemente na consciência de Margarida, que para mais tinha uma saúde frágil e devia tomar sozinha e sem as trair as decisões no lugar do Duque Carlos, quando este estava ausente durante as suas numerosas campanhas.

É para una mulher numa tão trágica situação que os dois escritos do Rosário foram compostos. Eles levaram a duquesa a procurar em Jesus Cristo - pela oração - o equilíbrio interior.

E de fato, Margarida encontrou esse equilíbrio. Carlos II estimava Adolfo. E conseguiu que a sua Ordem o designasse como primeiro superior da sua nova cartuxa, perto de Sierck (1415-1421).

O Duque tinha verificado que a sua esposa começava desde 1400 a adquirir uma tal prática espontânea, viva e perseverante do Rosário, que ela parecia como q e transformada, e em posse sempre mais perfeita das virtudes da « Vida de Jesus ».

O que ela experimentava como uma ajuda eficaz, esta mulher assim dotada comunicava-o aos nobres da sua corte e ao pessoal ao seu serviço. Mas antes de mais, desta oração ela fez uma prática pessoal, ovação que viveu intensamente na sua própria vida, de maneira que à sua morte, em 1434, a sua santidade foi reconhecida por todos.

O seu processo de canonização não chegou a bom termo. Mas ela é a avó de Bernardo de Baden (1429-1458) e a bisavó da Beata Margarida de Lorraine (†1521).

Ela é a primeira a propagar o Rosário. Provavelmente devemos à sua influência a maneira original de o rezar nos países latinos.

Adolfo de Esser, o primeiro devoto do Rosário

Os registros da cartuxa da época chamam-no: "Adolphus de Assindia" (cerca 1375-1439). Assim é designado o seu nome de batismo - os nomes em religião não existem ainda - e o seu lugar de origem. Ele é oriundo do Principado das Nobres Senhoras Cônegas isentas de Esserl Ruhr. Da sua vida anterior e sobre a sua família não fez - como bom cartuxo - nenhuma revelação, o que não facilita as investigações.

Não se deve atribuir a sua profunda devoção para com a Santíssima Virgem à influência da sua mãe; o único episódio conhecido da sua juventude no-lo prova. E se ele teve uma entrada tão rápida na corte de Lorraine, não é porque estivesse habituado a mover-se em meio nobre e fosse, apesar da sua juventude, uma personalidade particularmente madura.

Todos os fatos concordam e provam que Adolfo pertencia a uma família da velha nobreza, da região de Colônia, que exercia desde há séculos a função de magistrado, isto é, o mais alto cargo do Principado de Esser.

Na corte ducal de Guilherme Von Berg (†1408) Adolfo gozava da consideração e da confiança do Duque e da sua esposa, que era Ana de Baviera, e que fundou em 1407 em Dusseldorf « a Fraternidade das Alegrias de Nossa Senhora para as Irmãs e Irmãos do Rosário ».

Além disso, Adolfo fez provavelmente estudos de direito na jovem universidade de Colônia. Quando entrou em região, ele tinha pelo menos o titulo universitário de « Bacharel em Artes ». O seu estilo oratório revela como está próximo do povo, apesar da sua formação universitária. Muito cedo ele poderia ter adotado de um convento de devotas de Esser, sem dúvida pelos bons cuidados dum cônego, a sua maneira popular de recitar as 50 Ave.

E se ele pôde tão facilmente socorrer a duquesa de Lorraine na sua aflição, é porque ele antes, numa situação trágica, teve de recorrer a esta forma de piedade bíblica, que não abandonará jamais até à sua morte.

Uma confidência durante o último ano de vida revela ao mesmo tempo quais foram as necessidades e a graça desta hora: « Eu não podia de maneira nenhuma ser ajudado, se Deus não se tivesse feito homem! Eu não teria sabido onde e como encontrar Deus. É por isso que eu tenho tanta consideração pela natureza humana e a vida terrestre de Cristo ».

Isso aconteceu quando ? Segundo Modesto Leydecker, historiador da cartuxa de Tréveris em 1765, a causa imediata da entrada de Adolfo na Ordem teria sido provocada por uma repentina epidemia de morte massiva.

A decisão, portanto, tinha amadurecido lentamente, com as preocupações que lhe causava a sua mãe e também por causa dos acontecimentos vividos na corte do Duque de Berg. Talvez isso se situe à volta de 1396, na altura dos seus estudos em Calória.

A mesma época terá sido a hora do nascimento do Rosário. Enquanto Adolfo recitava as 50 Ave-Marias, esta humilde oração, ele apercebeu repentinamente desenhado num imenso fresco o curso do mundo englobando o seu próprio destino banhado no amor condescendente de Deus. Desta maneira, Adolfo de Esser foi o primeiro devoto do Rosário. Por que?

Precisamente porque foi o primeiro a unir a contemplação - da - vida - de Jesus à recitação vocal das 50 Ave-Marias. Desta união nasceu o nosso Rosário hoje em uso.

As 50 Ave-Marias das Devotas de Esser

Na Baixa - Renânia, existiam até ao século XVII várias maneiras diferentes de recitar - com sentido - 50 Ave-Marias consecutivas. Dois livros de orações das Devotas de Esser contêm a maneira mais bela e a mais próxima do nosso Rosário. Encontram-se nos arquivos da catedral.

Eliminando toda a sobrecarga ulterior, obtemos o texto seguinte, que Adolfo de Esser certamente conheceu: No dia que comemora a Encanação do Filho de Deus no seio da Virgem Maria, reza assim :

« Ó Mãe de Deus, eu ofereço-te estas 50 Ave para te louvar e te honrar em reconhecimento do dia em que o Anjo Gabriel te anunciou que ias conceber o Filho de Deus pela ação do Espírito Santo. Como tu própria te doaste, também eu te entrego o meu corpo e a minha alma, a minha honra e todo o meu bem, os meus cinco sentidos e tudo aquilo de que posso dispor. Da tua parte, obtém para mim da parte do Senhor Onipotente tudo o que me é útil e bom para o Seu serviço, e para a minha alma a felicidade; e se um dia a minha alma e o meu corpo devem separar-se, então reclama, como sendo teu bem pessoal, a minha pobre alma e conduze-la à alegria e à felicidade da vida eterna. Amén ».

A partir desse dia durante um ano e todos os dias, recita 3 Ave como prova da tua consagração a Maria e acrescenta a oração seguinte :

« Ó Mãe de Deus, eu ofereço-te essas 3 Ave para te provar que no dia em que concebeste o Filho de Deus pela ação do Espírito Santo, eu dei-te o meu corpo e a minha alma, etc. (como referido acima) ».

Um ano depois, na festa de Maria, recita, em primeiro lugar de pé, o salmo « Miserere » e continua de joelhos :

« O Anjo do Senhor entrou e disse a Maria: Eu te saúdo, Maria, cheia de graça. O senhor é contigo, tu és bendita entre todas as mulheres e Jesus, o fruto do teu ventre, é bendito ».

Levanta-te agora, e diz com fervor : Amén. Eis o dia que o Senhor fez! Hoje Deus teve pena do seu povo ! Hoje livrou-o da morte, que uma mulher nos deu e que uma virgem agora suprimiu !

Agora lança-te três vezes por terra e diz :

« Hoje Deus fez-se homem! O que Ele era, permaneceu o mesmo; e o que não era, adquiriu-o: Hoje Deus fez-se Homem ! » De novo de pé, para venerar e festejar jubilosamente o começo da nossa salvação, diz : « Glória a ti, Senhor ! Porque por esta obra, que é a maior do teu amor salvador, Tu nos concedeste, a nós, pobres pecadores, a Redenção total e a ajuda que conduz à vida nova ».

Enfim, de joelhos, termina a tua oração por estas palavras :

« Ora por nós, Santa Mãe de Deus. Para que nos tomemos dignos das promessas de Jesus Cristo.

Ó Deus, Tu que quiseste que o Teu Filho, depois do anúncio do anjo, tomasse carne no seio da Virgem Maria, concede a teus Filhos que a reconheçam verdadeiramente como Mãe de Deus. Por J.C.N.S. que vive e reina contigo na unidade do Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amén ».

III - O « bilhete-socorro » de Domingos de Prússia

Na Primavera de 1409, os Cartuxos de Tréveris elegeram como prior Adolfo de Esser, embora fosse o mais jovem entre eles. No mesmo ano, nos fins do Outono, um estudante pediu para ser admitido no convento. Fisicamente e psiquicamente ele estava sem forças, embora a morte lhe parecesse próxima. O Prior, a quem ele agradava apesar de tudo, enviou Domingos (1384-1460) a um piedoso Padre Carmelita, seu amigo, o bispo auxiliar de Tréveris, Comado de Altendorf (†1416). Este, depois de o ter ouvido em confissão - uma confissão geral de toda a sua vida - recomendou o vagabundo ao Prior : o que levou o Padre Adolfo a intervir em seu favor junto da comunidade. Foi assim que Domingos entrou no noviciado.

Anos antes, os seus condiscípulos de Cracóvia tinham formulado sobre Domingos um juízo muito apropriado: se as mulheres e a paixão do jogo não o destroem, ele dará um excelente clérigo - bem entendido na medida em que isso é possível na nossa universidade. De fato, por toda a parte onde a juventude se reúne, ele - o filho de um pescador - tornou-se depressa o « mestre de prazer ».

Ele ocupou vários cargos bem retribuídos, como preceptor, notário e mestre de escola. Mas após um certo tempo, desaparecia de novo, para fugir às suas dívidas de jogo. Entretanto fez um pedido para entrar nos cartuxos de Praga. Foi recusado por causa da sua inconstância… Ora agora, dois anos depois, na altura em que ele está muito fatigado, muito deprimido, encontra-se com o Prior para o aceitar; um Prior que lhe assegura que comprometia a sua alma para o salvar, com duas condições: se ele aguenta e se ele aceita fazer o que a Ordem lhe imporá. Adolfo confiou o noviço aos cuidados do P. Pedro Eselweg.

É nesta situação, que acabamos de descrever, que o P. Adolfo pôs o seu aluno ao corrente da sua nova maneira de rezar, que ele chamava « Rosário »; isso soou como um cântico de amor. Inesquecíveis permaneceram estas palavras que ele acrescentou em seguida: « Não é possível que exista um homem tão corrompido que não consiga uma séria emenda da sua conduta, se recita esse Rosário durante um ano ! »

A partir desse momento, Domingos entregou-se de todo o coração a essa oração, mas sem sucesso. Em vão recomeçou. Não conseguia concentrar-se; de tal modo estava enfraquecido.

Então teve uma idéia - era durante o advento de 1409 - a idéia de resumir numa folha « a vida de Jesus » em 50 pequenas frases, que serviriam cada uma, por seu turno, para a meditação durante a recitação das 50 Ave. Graças a « esta invenção » conseguiu enfim meditar.

Na sua alegria, revelou imediatamente aos seus companheiros, os outros noviços, « a astúcia », que lhe abriu os caminhos da oração. E bem depressa o Prior aprendeu-o também ele. Domingos admirou-se que o P. Adolfo pudesse considerar com tanta seriedade « esta futilidade ».

Este último, com efeito, tinha compreendido imediatamente que ajuda preciosa o método podia trazer às pessoas incapazes de rezar à maneira atual da duquesa e da sua. E para que a vantagem não se perdesse, pediu uma cópia do bilhete. Quando mais tarde, Domingos não cedia, então muito simplesmente Adolfo obrigou-o a transcrever outros bilhetes.

Divulgado por mais de mil exemplares através do mundo

Nunca Domingos duvidou que 50 anos mais tarde, ao recordar, escreveria semelhante verificação. Para já estava contente por ter descoberto uma maneira de rezar o Rosário. Mas o seu caráter instável incitou-o depressa a tomar a procurar outras formas de oração, que poderiam por acaso - como ele pensava - ser mais dignas da « Rainha dos Céus ». Ainda noviço, Domingos pôs-se a compor como jogo de criança, com e sob forma de orações, uma espécie de « cerimonial de corte » para corte principesca, em honra da Mãe de Deus. Algum tempo depois, pôs-se com ela a querer « educar e cuidar do Menino Jesus ». Enfim, compôs - em paralelo com o « demasiado humilde Rosário » - uma oração que, sem comentário, se tornou inacessível aos seus amigos, que não conheciam a sua mania dos anos vagabundos: a Alquimia. A redação desse comentário tomou-lhe sete anos (1432-1439). Tornou-se a sua obra mestra e estranha : « A coroa de pedras preciosas para a Virgem Maria ».

Tudo isso revela que Domingos não teve, sem dúvida nunca, uma visão de conjunto do Rosário. Começou somente a duvidar de qualquer coisa, quando, após a morte de Adolfo, vítima da peste, selecionou os seus papéis. Antes estava admirado, até mesmo irritado algumas vezes, quando Adolfo e um número crescente de confrades e de estrangeiros o solicitavam para outras cópias. Ele passou anos de solidão e de fraqueza. Quando verdadeiramente não é capaz de satisfazer os pedidos, os seus confrades ajudaram-no. Embora cada exemplar fosse submetido a uma censura rigorosa, antes de deixar a cartuxa, o texto, já em vida de Domingos, sofreu variantes.

Mas de que provinha este pedido ?

O Rosário no contexto da reforma religiosa do século XV

O Concílio de Constança (1414-1418), com a eleição de Martinho V (1417-1431), restabeleceu a unidade da Igreja e favoreceu a reforma beneditina. Na mesma época por três vezes, Adolfo de Esser era eleito abade de importantes abadias. Mas ele recusou sempre, apesar da intervenção insistente do Arcebispo de Tréveris, Otto de Ziegenhair (14181430). Mas quando o seu irmão em religião, João Rode foi designado para o cargo de abade de S. Matias em Tréveris (1421-1439) e este lhe pediu para o acompanhar nas suas viagens e para o apoiar discretamente nas suas reformas, então Adolfo aceitou. É a esta atividade oculta que é preciso atribuir o fato que no princípio - além dos Cartuxos - foram os Beneditinos os mais importantes propagandistas e intérpretes das 50 pequenas frases do Rosário de Domingos de Prússia.

Numerosos códices, por exemplo, os da Abadia de Tegernsee, mostram como esta maneira bíblica de rezar foi usada para renovação espiritual. De lá, ela estendeu-se a outras abadias da Alemanha do Sul.

Até então o Rosário era uma oração altamente pessoal e individual.

Alguns 25 anos após a morte de Adolfo, começou-se a recitá-Io em comunidade, no Norte da França, sem se duvidar que a oração de massas possa sujeitar-se a outras leis psicológicas diferentes das da oração individual. A massa nivela e aplana. Isto devia verificar-se, agora que o Rosário de Domingos é retomado pela Confraria do Rosário.

Eis como isso se passou: logicamente, em três etapas.

Alain de Ia Roche O.P.

Alain de Ia Roche O.P., de que se falou mais acima, aprendeu a conhecer os escritos de Domingos de Prússia, pelos cartuxos belgas. Ele aderiu a um movimento de reforma muito particular : a « Congregatio Hollandica », que se estendeu de Lille a Colônia e ao longo das costas do Báltico. Alam rejeitou o nome « Rosário », que lhe parecia erótico e por conseguinte inconveniente, e adotou das Devotas de Gand o nome « Saltério », para um saltério de 150 Ave. No entanto conservou de Tréveris a « Meditação - da - vida - de Jesus ».

A partir de 1463, propagou pela pregação e seus escritos a nova maneira de rezar, e acentuou o seu lado comunitário. E quanto mais avançou em idade, tanto mais mergulhou cabeça baixa na oração « confrarizada », embora esta se tornasse demasiado complicada e exageradamente pesada.

A reação foi que a confraria do Rosário - que os seus discípulos tinham fundado em Colônia em 1475 - abandonou completamente a meditação do Evangelho. O que arrastou a resistência dos membros alemães do Sul da Confraria. O resultado disso foi que em 1481, em Vim, por abreviação das « pequenas frases de Tréveris », viu-se aparecer pela primeira vez - quase na sua forma atual - os 15 Mistérios do Rosário.

Será preciso esperar ainda uns bons 200 anos, antes que o Rosário obtenha da Confraria a sua forma definitiva, aquela que nós lhe conhecemos hoje.

O mais antigo texto de Domingos de Prússia
há pouco descoberto

A « Vida de Jesus » recortada e resumida em 50 frases assemelha-se, em muitos lugares, textualmente, a passagens de Santa Matilde de Hackeborn de quem Domingos lia todos os dias um extrato da sua obra « Liber spiritualis gratiae ».

Cada uma das frases deve ser precedida da Ave, da maneira seguinte :

« Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco; bendita sois Vós entre todas as mulheres, e bendito é o fruto de vosso ventre, Jesus »…

  1. Que tu, Virgem pura, concebeste do Espírito Santo. Amén.
    Cada Ave-Maria, com sua cláusula, vai concluía com um « Amén » e um breve momento de silêncio para meditar.
  2. Que tu foste através da montanha ao encontro de Isabel.
  3. Que tu, serva pura, concebeste com grande alegria.
  4. Que tu envolveste em faixas e deitaste num presépio.
  5. Que os Santos Anjos louvaram com cânticos celestes.
  6. Que os pastores procuraram e encontraram em Belém.
  7. Que foi circuncidado ao oitavo dia e chamado Jesus.
  8. A quem os três Reis Magos ofereceram ouro, incenso e mirra.
  9. Que tu apresentaste no Templo a Deus seu Pai.
  10. Com quem tu fugiste para o Egito e donde regressaste sete anos depois.
  11. Que tu perdeste em Jerusalém e reencontraste três dias depois.
  12. Que crescia todos os dias em idade, em graça e em sabedoria.
  13. Que São João batizou no Jordão.
  14. Que Satanás tentou e não venceu.
  15. Que anunciou ao povo o Reino dos Céus com os seus discípulos.
  16. Que curou muitos doentes com o poder de Deus.
  17. De quem Maria Madalena lavou os pés com as suas lágrimas, enxaguou-os com os cabelos e ungiu-os com perfume.
  18. Que ressuscitou dos mortos Lázaro e outros.
  19. Que foi transfigurado no Tabor diante dos seus discípulos.
  20. Quem, no dia de Ramos, em Jerusalém, foi recebido com grande pompa.
  21. Quem, na última ceia, deu o seu corpo aos discípulos.
  22. Quem rezou no Jardim das Oliveiras e suou gotas de sangue.
  23. Quem se deixou prender, amarrar e conduzir de um juiz ao outro.
  24. Que muitas testemunhas acusaram falsamente.
  25. De quem a santa face foi escarnecida, velada e impressionada.
  26. Quem, despojado seus vestidos, atado a uma coluna, foi duramente golpeado.
  27. Que foi cruelmente coroado de espinhos.
  28. Diante de quem dobravam o joelho e adoravam com desprezo.
  29. Que foi condenado injustamente a uma morte ignominiosa.
  30. Que transportou a cruz sobre os seus santos ombros.
  31. Quem, ao voltar-se, te dirigiu a palavra, a ti sua mãe, assim como a outras mulheres.
  32. Quem foi cravado na cruz pelas mãos e pés.
  33. Quem rezou por aqueles que o crucificavam, o torturavam e o matavam.
  34. Quem disse ao bom ladrão : « Hoje mesmo estarás comigo no paraíso ».
  35. Quem te confiou, a ti sua mãe contristada, a João seu discípulo bem amado.
  36. Quem gritou : « Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste ? ».
  37. Quem foi dessedentado com fel e vinagre, quando disse : « Tenho sede ! ».
  38. Quem disse : « Pai, entre as tuas mãos entrego o meu espírito ! ».
  39. Quem disse em último lugar : « Tudo está consumado ! ».
  40. Quem sofreu uma morte cruel por nós, pecadores. Amén. Louvor a Deus !
  41. Cujo lado foi perfurado, donde correu sangue e água.
  42. Quem, descido da cruz, tu recebeste sobre os teus joelhos, como normalmente se crê.
  43. Quem homens justos e bons embalsamaram e sepultaram.
  44. Cuja alma santa desceu aos infernos e libertos e libertou os nossos Pais.
  45. Que ressuscitou dos mortos ao terceiro dia. Aleluia!
  46. Quem te alegrou com uma muito grande alegria, a ti e àqueles a quem apareceu. Aleluia!
  47. Quem também, na tua presença subiu ao céu e está sentado à direita de seu Pai. Aleluia!
  48. Quem um dia julgará os vivos e os mortos.
  49. Quem enviou aos seus fiéis o Espírito Santo no dia do Pentecostes.
  50. Quem te fez subir ao céu, a ti sua dulcíssima Mãe, para estar com Ele, que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo agora e sempre. Amén.

O Rosário dos princípios e do futuro

A história da sua origem mostra claramente isto: antes de estar ao uso da comunidade, o Rosário era uma oração estritamente pessoal.

Se hoje cristãos, e mais particularmente os jovens, são alérgicos ao terço comunitário, não é talvez porque os adultos não o rezam com bastante silêncio.

Ou então, porque estes últimos, em contradição com a sua idade real, falharam em maturidade e abertura na sua maneira de o rezar?

Ou enfim, porque talvez ninguém nunca lhe dissesse que uma boa recitação do Rosário exige conhecimento acrescentado do Evangelho e de fidelidade a Cristo? Não esqueçamos: três jovens estão na origem do Rosário!

Adolfo de Esser tinha apenas 23 anos quando o rezou pela primeira vez à sua maneira, em 1396.

A duquesa Margarida de Baviera tinha 24 anos quando Adolfo lhe entregou os seus dois escritos cerca do ano de 1400.

E Domingos de Prússia contava 25 anos quando acrescentou, para seu uso pessoal, o « bilhete-socorro » ao terço de Adolfo, em 1409.

O que nasceu de uma necessidade pessoal urgente, numa época muito perturbada, contém o essencial:

O nome « Rosário », tomado do Amor cortês, mostra bem que « Deus é Amor » (1 Jo. 4, 8) e reclama o nosso amor.

Fé cristã é mais do que ideologia de intelectual. Ela é essencialmente e concretamente: troca de amor, partido de Deus, o Mistério em Pessoa do mundo, e atingindo cada membro da humanidade. Deveria acontecer-me um dia ser escandalizado pelo lado demasiado humano da Sua Igreja (à qual Ele me reenvia sem cessar), então é na Sagrada Escritura que eu devo procurar o Seu Rosto e o Seu Coração. Para lá chegar, é indispensável que eu comece pelo princípio e que eu procure - se é preciso, com a ajuda dos melhores comentários - uma inteligência mais profunda e mais ampla de cada passagem do Evangelho.

Mas em última instância lá onde nenhum comentário pode substituir-me, eu devo, na fé, tomar a sério a sua Pessoa e o seu Coração e realizar no quotidiano da minha vida os seus desejos e ensinamentos. Eu consegui-Io-ei somente, se renuncio a ler o Evangelho apenas e começo a meditá-Io em « Comunhão dos Santos », e mais particularmente com os olhos e o Coração de Maria. A vocação particular e a maior alegria da Santíssima Virgem é conduzir-nos a « um melhor conhecimento de Jesus ».

Tomemos sem escrúpulos à liberdade de dizer - na recitação privada do terço e durante um certo tempo - a Ave na sua fórmula breve como uma saudação pessoal à Mãe de Deus, com a qual passamos em revista toda a história da nossa salvação por Jesus.

Mas seja qual for a maneira de rezar o terço - se ele é rezado « honestamente » - contém uma abundância de graças para as dificuldades presentes e as necessidades futuras2.

O Papa Paulo VI na Encíclica « Marialis Cultus » propôs as « fórmulas » como um dos meios de renovar a recitação do Terço.

O sistema mais fácil é dizer uma fórmula em cada dezena de Ave-Marias. Dizem-se pois cinco fórmulas, dez vezes cada uma, por Terço. De um dia para o outro pode-se pois seguir a lista das fórmulas ou escolher dentre elas.

É o terço cartusiano. É talvez o terço do futuro.


Notas :

  1. Extraído da Revista « Der Sendbote des Herzens Jesu », editada pelos Padres Jesuítas, A-6021 Innsbruck, Sillgasse 6. Números de Julho (I), Agosto (lI) e Setembro (III) de 1970. Tradução do francês de Armindo Carvalho O.P. editada pelo Secretariado Nacional do Rosário de Fátima em 1998.
    Este texto sobre as origens do Rosário será, porventura, de especial interesse às pessoas que procuram indagar as questões históricas das origens do Terço, assim como também às que desejam conhecer melhor a sua formação, com o fim de poder rezá-lo com mais proveito. Nós conservamos aqui os sublinhados em negrito da edição portuguesa do Secretariado Nacional do Rosário. [regresso]
  2. NOTA POSTERIOR: Como o fato de reter na memória ditas cláusulas pode ser um inconivente para algumas pessoas, é bom lembrar que não há nenhum problema de poder-se ajustar aos Mistérios comuns do Terço - que todos sabemos de cor - utilizando como cláusula única, para cada dezena de Ave-Marias, um dos mistérios da vida de Cristo e nossa Senhora. Enquanto assim se faz, podemos permanecer unidos a Maria num sereno gozo (nos mistérios gozosos), ou com um ânimo de compaixão (nos dolorosos), ou com uma alegria compartida com Jesus, com Ela (nos gloriosos), ou, por fim, sob os raios da suave luz divina (nos luminosos).
    Ainda que no tempo do Terço de Domingos de Tréveris não existisse a segunda parte da Ave-Maria, tampouco há problema para que nós, depois do “Amén” da cláusula, seguido este de um instante de silêncio meditativo, possamos acrescentar essa segunda parte da atual Ave-Maria: Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Como assinalava o Pe. Jean Lafrance no seu livro O Terço, esta fórmula tem grande semelhança com a da Oração de Jesus de nossos irmãos orientais.
    A recitação do Rosário pode propiciar assim uma atitude muito simples, que faz que, ao mesmo tempo que pronunciamos com os lábios as Ave-Marias, o fundo de nosso coração fica unido ao Senhor. Deus pode chamar-nos desse modo a rezar esta oração vocal mantendo o coração numa simples atenção amorosa para com Ele, em Jesus, com Maria.
    Esta atitude simples e indefinível, como dizia o famoso monge trapista, Eugene Boylan, nos coloca perante uma verdadeira oração contemplativa, da qual o Terço converte-se em suporte. Eis suas palavras: “De fato, parece que para certas almas, uma destas ocupações (o Terço ou o uso de jaculatórias, p.e.) para as faculdades inferiores é uma condição necessária para o exercício da oração de fé. Por esta oração é que uma alma que parece estar absorvida na oração vocal e na meditação, é realmente elevada a este grau de oração (contemplativa). (“A dificuldade de orar”. Pág.66. Ed. Áster. Lisboa, 1957).[regresso]
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